quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Mundo de um só (Alzheimer)

(Ao meu pai Daniel Genovez)

*In memoriam





Foram-se seus pais

E antes, os avós...

Esqueceu-se da companheira

E dos seus filhos;

Atravessou o rio

Sobre a ponte de cipó...

Por um fio;

Meu amigo da vida inteira.



Foram-se os vizinhos,

Os parentes,

Os amores

Pelos caminhos rentes;

Os passantes,

Os ajudados,

Os militantes

E os ausentes...

Bichos, plantas, as rosas,

As sementes.

E todos os pássaros de prosa

Voaram...



Nomes de outrora;

Rastros, registros... Passado!

Apagados da memória,

Em uma só baforada

Da fumaça que invade.

Foi embora pro nada...

E volta

Na esquecida saudade!



Rio, 08 de maio de 07.



sábado, 5 de maio de 2012

Rumo às águas





Sob a lua que ainda balança insone

entre vielas e vértebras de paredes pálidas,

palpita meu beijo esquecido às escuras

nos montes dos teus lábios tesos;



Um raio pactuado com a tempestade

insurge diante da noite

e do ar mutilado que sustenta um suspiro

ainda revejo teus olhos queixosos

e úmidos por eu ter que de partir;



Rumo à flor que o mar me oferece,

ao suor das mãos tecido em prece

esperam-me as águas... Amanhece!



Desperto das cores dos candeeiros acesos,

das sombras solitárias que se erguem,

harpeadas de féretro silêncio

e dançam como pétalas tontas ao vento;





Longe do vilarejo, um pescador ao mar;

Ao desalento das estrelas derramadas inúteis

por que te ressurges das noites de solidão

e mesmo quando todo o céu é puro breu,

falso de anjos e demônios, guardo-te silente

na pedra dura da minha existência;



Reascende-me o olhar marginal das ilhas,

do fogo comum de toda esperança que exila,

enredado na coragem que não se aplana.



Daniel Genovez
Rio, 15 de julho 09.



sexta-feira, 16 de março de 2012

Engano...

Uma topada na pedra alardeia todo o reino!
A linda princesa desperta do seu sonho profundo;
Esquecida de fugir comigo, boceja num aceno
E do castelo cheirando imundo...
Acendem-se os lampiões.

Por ordem do rei Reno, partem os ferozes cães ...
As flechas dos guardiões pararam inúteis no meu peito;
Não encontraram mais meu coração estreito
Só a dor que se escondia diante do fato consumado...
Mordidas dilacerantes, feridas abertas, o pé quebrado;

Nada dói mais que amar errado!



Daniel Genovez
Rio, 28 de agosto 07.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Chuva Fora de Estação



Chuva Fora de Estação
Daniel Genovez


Rosa...
A chuva agora está caindo
A manhã que brota sorrindo, te anseia
Na ternura das gotas cálidas
Molha as joaninhas, a borboleta
Que se aninha no seu coração
Que é de ninguém

Olha...
Lá fora de época, a primavera,
Está crescendo o lírio junto à roseira
Acorda de leve e prazenteira
A terra quebrada de tanta espera
Que se abriga no seu coração
Que é de ninguém


Nos galhos secos desfolhados pelo vento,
Um amor sincero agarrou meu pensamento...


Agora...
O céu azul ficou mais claro,
De tantos pássaros alegres revoados
Fora de época
Está chegando a primavera
Molha...
Brotos se abrindo da roseira,
Os pingos que caem da soleira
Escorrem num trilho
E formam um rio
Que me leva para o sertão
Que se aninha no seu coração
Que é de ninguém
E é meu também.


27 de abril 08. * Esta poesia foi publicada no Portal de Campos do Jordão:http://www.camposdojordao.inf.br/index.php?option=com_content&task=view&id=111&Itemid=1